REVIEW // VAHAGN – ‘TRUST’ EP [GR 014]

Tivessem-me vindo há 10 anos dizer que daria hoje em dia por mim a tocar House, tê-los-ia provavelmente mandado de forma educada e cortês para o caralho. Se comecei por Brighton com o big beat de Propeller Heads ou Bentley Rythm Ace, rapidamente passei ao electro de uns Adult e de uma Miss Kittin, tendo mais tarde perdido parte da capacidade auditiva com a ajuda do techno e do hardcore mais duros que desenterrei nas raves mais manhosas da Península. E se me deixei entretanto envolver na hipnose da Colónia minimal, com artistas como Alex Under e Basteroid, isso serviu apenas para – algures de passagem por Barcelona – me fartar por fim de tanto minimalismo e abraçar com entusiasmo a nouvelle vague de electro francês liderada por Mr. Oizo e companhia.

A História ensina-nos no entanto que nada permanece, pelo que já deveria saber que acabaria eventualmente por começar a ter dores de dentes de cada vez que ouvisse os estridentes serrotes desses hits de electro e dubstep mais agressivos, e a preferir as notas doces, os vocais quentes, esse groove tão físico de um deep e de um tech… House.

Quis o destino que conhecesse o Vahagn já lá vão uns anos, por altura de um muito undergroud after ironicamente apelidado de “Xonar”, que rebentava diariamente em minha casa sempre que acabava a música no Sonar. Creio que rolámos uns discos juntos nalguma dessas tardes épicas – garrafas de Xibeca na mão, chão de azulejo e gente de proveniências diversas – e desde então não foi uma nem duas vezes que ouvi grandes sessões do Vahagn por essa Lisboa fora. Posso contudo dizer que o seu EP de estreia na portuguesa Groovement, ‘Trust’, me surpreendeu a vários níveis, e que embora fique feliz por tê-lo ouvido num momento em que tenho as antenas especialmente para aí viradas, boa música é boa música em todo o momento e em todo o lado.

Não são os vocais de Sun Ra, nem as deliciosas progressões de synths, nem os felizes hi-hats, nem o som das cabrinhas a descer o monte, que fazem deste tema aquilo que ele é: é  sim a clareza e maturidade com que todos estes elementos estão arquitectados, sobrepostos e sequenciados que torna ‘Trust’ num pedaço de malhão envolvente e intemporal destinado à nascença a ser ouvido, dançado e suado nas pistas mais bravas e bem-informadas da Costa Rica ao Burkina Faso (indo à volta).

Se ‘Studio story dropdown‘ é claramente a minha versão preferida, é também verdade que a remix de Tiago lhe acrescenta uma merecida dimensão nómada, convertendo-a em última análise numa hipnótica viagem que vai inevitavelmente evocar memórias de décadas passadas e de sensuais festas em locais pouco recomendáveis: uma cereja ácida no topo de um bolo de chocolate negro.

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